Nota Cultural

NOTA CULTURAL JUN2018

Fisiologia em 1933

Prof. Alberto A. Rasia Filho


O livro intitulado “Précis de Physiologie”, traduzido “Compêndio de Fisiologia”, de autoria de E. Hédon (Professor de Fisiologia da Faculdade de Medicina de Montpellier, França) era um dos livros de referência na área na década de 30 do século passado. Tratava-se de trabalho minucioso que, em cerca de 630 páginas de tamanho médio, buscava descrever as várias evidências disponíveis para, guardada a grafia da época, a “Physiologia Geral”(dos fenômenos gerais da vida),“Funcções de Nutrição” (digestão, absorção, circulação, respiração, nutrição, secreções e calor animal),“Funções de Relação” (fisiologia do movimento, fisiologia especial do movimento, fisiologia dos centros nervosos, fisiologia especial dos nervos e órgãos dos sentidos) e “Funcções de Geração” (reprodução). É interessante perceber o progresso na área da Fisiologia quando está escrito, no prefácio, que o livro revisado apresentava “importantes descobertas do papel do seio carotidiano na regulação da pressão sanguínea”, da mesma forma que “os reflexos respiratórios receberam algumas linhas complementares...”. Logo na Introdução, o autor escreve de forma importante que “Determinar as condições physico-chimicas dos phenomenos vitais tal o fim que se deve propor o physiologista; os progressos da physiologia são todos resultantes da applicação dos methodos da physica e da chimica ao estudo do ser vivo.”
Por outro lado, na época acreditava-se que “o leucocyto, verdadeiro organismo unicellular, analogo a uma amiba, apresenta todos os caracteres da vida. É irritavel e contractil; pelos pseudopodos, que emitte, muda de fórma, desloca-se, engloba e digere as partículas solidas com que se põe em contacto. Graças aos movimentos amiboides, os leucocytos podem atravessar as paredes dos capilares (diapedese) e penetrar nas lacunas do tecido conjunctivo... D’esta sorte eles constituem os intermediários morfológicos, que estabelecem as trocas nutritivas entre o sangue e os tecidos”.   Ademais, “a atividade das trocas gasosas, no homem, augmenta com a idade até um máximo, que é alcançado nas proximidades de 32 annos, depois diminue até a morte”. Ou “o que caracteriza a febre, além da elevação de temperatura, é pois o aumento das combustões intersticiais; e como durante a febre o corpo é mais ou menos incapaz de qualquer trabalho, resulta que a massa consideravel de energia posta em liberdade deve-se transformar, quasi integralmente, em calor: a impossibilidade em converter essa energia em trabalho é ainda um traço característico dessa perturbação mórbida.”
As enzimas eram denominadas de “fermentos” e o nervo vago de “pneumogastrico”. Por sinal, não se conhecia plenamente o neurotransmissor capaz de gerar a redução da atividade cardíaca após estimulação vagal. Para isso, “recentemente foi proposta uma theoria chimica (O. Loewi); a inhibição cardíaca deveria ser referida á liberação de uma substancia chamada ‘vagal’ cuja acção sobre o myocardio seria precisamente a de excitar o pneumogástrico... O mecanismo intimo da acção de parada” (cardíaca momentânea após estimulação elétrica vagal intensa, como feito nas demonstrações práticas universitárias da época e nas décadas seguintes) “nos é desconhecido. Howell emittiu a hypothese de ser a parada do coração por excitação do vago o resultado de uma libertação do potássio que exerceria sua acção diastolica sôbre a fibra muscular... Segundo O. Loewi, a excitação do vago de um coração de rã perfundido pela solução de Ringer, confere a êsse líquido as propriedades inhibidoras, que se podem revelar por sua acção sôbre um outro coração. Uma substância chamada ‘vagal’, que exerce sôbre o nervo, chimicamente, a mesma acção que a excitação do nervo, seria posta em liberdade ao mesmo tempo em que pára o coração. Esta questão do transporte humoral da excitação nervosa é actualmente objecto de controvérsia”.


NOTA CULTURAL MAI2018

A ESCRITA “HIEROGLÍFICA” EGÍPCIA

Prof. Alberto A. Rasia Filho

 

O livro “História Universal dos Algarismos” de Georges Ifrah, tradução de Alberto Muñoz e Ana Beatriz Katinsky” (Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997, do original em francês de 1995) trata de como se interpreta a escrita egípcia hieroglífica secular. Assim, adaptando levemente o texto original, essa grafia “designa ordinariamente tudo o que tem traço de forma específica da antiga escrita fundamental do Egito faraônico... de uma maneira geral, qualquer caractere pictural gravado, esculpido ou pintado... os quais eram tidos... como ‘a expressão da palavra dos deuses’... e tinham recebido dos autores gregos o nome de grammata iéra (‘caracteres sagrados’) ou, mais precisamente, o de gramata iérogluphika (‘caracteres esculpidos sagrados’),a expressão de onde deriva nosso termo ‘hieróglifo’. A língua falada outrora no Egito dos faraós foi-nos transmitida por inúmeros textos figurando em monumentos de pedra (templos, obeliscos, tumbas e estelas funerárias),em papiros, em cerâmicas ou em placas de calcário.

                  Nas diversas inscrições monumentais, esses hieróglifos são lidos seja da esquerda para a direita, seja da direita para a esquerda, e isso horizontal ou verticalmente (em colunas de alto a baixo). A orientação dos sinais varia em função do sentido da leitura: todos os seres animados (humanos ou outros animais) são virados na direção do início da linha.

                  Os hieróglifos podiam ser vistos como imagens-sinais com sentido completo: tinham por função significar o que representavam visualmente... Assim, a imagem de uma perna humana podia não somente revestir o sentido da ‘perna’, mas também o de ‘andar’, ‘correr’ ou ‘fugir’. Igualmente a imagem do disco solar poderia significar o ‘dia’, o ‘calor’, a ‘luz’ ou designar o ‘deus-Sol’. O valor ideográfico de um caractere (isto é, o símbolo não fonético que representa graficamente algo ou uma ideia) não se substituía completamente por seu valor pictográfico (ou seja, a representação de conceitos por cenas figuradas ou por símbolos)... A pictografia não permitia exprimir tudo. Como representar, por exemplo, ações tais como: esperar, desejar, buscar, merecer, etc.; ou abstrações como pensamento, sorte, medo, amor, etc.?” . Para exemplificar como se elaboraram os hieróglifos antigos, guardados os cuidados históricos, o autor propõe a seguinte construção de ideias como possibilidade de comunicação: “Imaginemos que nós, franceses..., estejamos sujeitos a empregar apenas um sistema de imagens-sinais para transcrever as palavras de nossa língua. Queremos representar a palavra laranja, por exemplo. A primeira ideia é, portanto, desenhar essa fruta. Essa palavra é então representada por um pictograma. Mas se essa representação visual evoca diretamente a ideia, ela apresenta, igualmente, o inconveniente de ser independente da língua em que o nome é pronunciado. Além disso, um tal sistema não permitirá exprimir quase nada de ideias abstratas ou ações, nem formar frases como na língua falada. Num segundo estágio, ocorre-nos outra ideia. Em lugar de utilizar as imagens no seu sentido pictural completo, vamos empregá-las doravante por seu valor fonético na língua francesa... Para representar o termo ‘laranja’ [orange], bastar-nos-á, portanto, reproduzir desde então uma imagem evocando a ideia de ‘ouro’ [or] e fazer com que seja seguida pela de ‘anjo’ [ange]. Pronunciando essa sucessão de imagens, obteremos o som de ‘laranja’ [or+ange], que lembrará o que procuramos exprimir foneticamente. Igualmente, para escrever, por esse meio, o termo francês ‘reverência’ [courbette] bastará reproduzir a imagem de um homem correndo [court], depois a de um animal [bête].

                  É por esse meio que as pictografias arcaicas chegaram ao estágio do fonetismo e mereceram, por conseguinte, o nome de ‘escrita’. Estas não permitindo uma transcrição do discurso falado e não dependendo de uma língua determinada, resolveu-se, com efeito, o problema inventado o princípio do empréstimo fonético, conhecido pelo nome de adivinha; as palavras abstratas foram decompostas em tantos elementos quantos se podia representar dela por meio de seres ou objetos cujas pronúncias numa determinada língua davam quase as mesmas articulações que essas palavras. Ora, retornando ao exemplo precedente transcrito relativamente à língua francesa, tais representações comportam uma ambiguidade (a precedente, por exemplo, podendo ser lida tanto como ‘corre-animal’ [court-bête], quanto como ‘correr-bicho’ [courrir-bête], ‘fugir-animal’ [fuir-bête]... É preciso, portanto, completar o conjunto com o ‘todo’ (um pouco à maneira de nossas charadas). Para a ‘laranja’ [orange] colocaremos também, no fim da palavra escrita foneticamente, o desenho de uma laranja que nos permitirá assim definir seu sentido. É o que se chama um ‘determinativo’: um pictograma que não se pronuncia, mas que serve para determinar o sentido concreto da palavra assim transcrita foneticamente. O mesmo vale para a ‘reverência’ [courbette], tomada no sentido do movimento do cavalo que se empina, acrescentamos à representação fonética correspondente uma imagem evocando claramente o movimento do animal (corre + bicho + ideograma de cavalo). Para representar alguém fazendo o que chamamos ‘reverências’ [courbettes] substituir-se-á a imagem do cavalo pela de um homem fazendo saudações (corre + bicho + ideograma da pessoa curvando-se respeitosamente].

                  Isso é, grosso modo, o que os egípcios fizeram com as palavras de sua própria língua quando elaboraram sua escrita hieroglífica. Alguns hieróglifos deixaram de ser imagens diretas (ou simbólicas) para se tornar verdadeiras ferramentas fonográficas empregadas no lugar do som ao qual correspondiam na língua egípcia. Assim, os hieróglifos egípcios foram empregados não apenas por seu valor de evocação visual, direta ou simbólica, mas ainda por seu valor fonético, constituindo os veículos de um ou vários sons... O ‘filhote da codorna’ era dito Wa em egípcio: seu desenho serviu doravante para escrever, além de seu valor ideográfico inicial, o som Wa.

O valor fonético associado aos hieróglifos foi sempre consonantal pois, tal como as escritas semíticas, a escrita egípcia só dava às vogais uma importância secundária: só exprimia consonantes, suportes em torno dos quais o uso corrente colocava uma vocalização. E como as palavras só comportavam uma, duas ou três articulações, os hieróglifos-fonogramas correspondentes – que conservavam a estrutura consonantal do ideograma original – exprimiam, por conseguinte, uma, duas ou três consoantes. Os hieróglifos-fonogramas eram repartidos em três categorias: 1) os hieróglifos uniliterais, que tinham um valor de consoante isolada (i, W, P, M, R, etc.),2) os hieróglifos biliterais, cujo valor fonético era composto de uma sequência de duas consoantes (WN, SW, etc.) e 3) os hieróglifos triliterais, cujo valor compreendia três consoantes (HPR, NFR, etc.). Partindo desses hieróglifos (ideogramas e fonogramas),os egípcios puderam traduzir todas as palavras de sua língua. Um exemplo figura na palheta de Narmer, a placa de xisto encontrada em Hierakonpolis e datado 3000-2850 a.C....Comemora a vitória do rei Narmer sobre seus inimigos do Baixo Egito. No centro da palheta o soberano com a coroa do Alto Egito brade sua maça sobre um cativo. Durante esse tempo o deus-falcão Horus lhe oferece os habitantes do Delta. O nome do soberano (que se dizia N’R-MR em egípcio) aparece abaixo de sua cabeça, compreendendo o hieróglifo do ‘peixe’ e a imagem do ‘cinzel’... o ‘peixe’ e o ‘cinzel’ são ditos, respectivamente, N’R e MR... Do mesmo modo a ‘mulher’, que se dizia SeT em egípcio, era escrita reproduzindo inicialmente a imagem do ‘ferrolho’ (hieróglifo exprimindo o som de ‘S’),depois a do ‘pedaço de pão’ (ou seja, ‘T’) e acrescentando a esse grupo a imagem de uma mulher (hieróglifo que não era pronunciado, mas permitia concretizar o som da palavra assim transcrita foneticamente). Designava-se do mesmo modo o ‘abutre’ (NeReT em egípcio) figurando o ideograma do pássaro de rapina precedido do ‘filete de água’ (som ‘N’),da ‘boca’ (som ‘R’) e do ‘pedaço de pão’ (som ‘T’).

Não se deve acreditar, contudo, que os egípcios só decompunham suas palavras seguindo consoantes. Em numerosas decomposições fonéticas empregaram não apenas fonogramas com valor de consoante isolada, mas ainda sinais biliterais ou triliterais. Nesse caso usaram ‘complementos fonéticos’, o que consistia em juntar a um sinal pluriliteral um ou vários sinais fonéticos simples decompondo a leitura do sinal em questão. Tomemos um exemplo francês: para escrever, mediante uma adivinha, o verbo ‘desviar’ [détourner], podemos decompô-lo em três elementos fonéticos e desenhar sucessivamente um ‘dado’ [], uma ‘torre’ [tour] e um ‘nariz’ [nez]. Isso, no entanto, pode dar lugar à confusão, já que a imagem da torre e a do nariz podem ser lidas, respectivamente, ‘castelo’ e ‘narina’. Para evitar essas ambiguidades podemos preceder o desenho da torre de um T e seguir por um Z a imagem do nariz. O valor fonético dos sinais adicionais não será acrescentado ao dos fonogramas assim ‘completados’, já que se trata simplesmente de auxiliares de leitura que não acrescentarão nenhuma articulação nova. Assim, para facilitar a leitura do hieróglifo da ‘lebre’ (WN),que se dirá WeN, os escribas egípcios ajuntaram a ele o sinal ‘N” figurado por um filete de água ondulante. Do mesmo modo, o nome egípcio do deus Amon (íMeN) era escrito mediante o sinal ‘í’ (o caniço florido, parecido com uma pena de ave) e o sinal ‘MN’ (o quadriculado) com o hieróglifo “N’ (o filete de água servindo aqui como complemento fonético) seguido do ideograma determinativo (figura do deus).


Veja-se então que o termo egípcio NéFéR, por exemplo, podia ter vários sentidos diferentes (nulo, nada, belo, moça, estofo, pênis, coroa do Alto Egito, etc.). Só a grafia plena correspondente permitia distinguir seus diferentes significados... Tratava-se, portanto, de um sistema misto, meio-figurativo, meio-fonético, em que os seres e os objetos eram representados por ambas imagem (e nesse caso acrescentava-se ao hieróglifo correspondente um pequeno traço vertical para bem mostrar que se tratava de um ideograma e não de um fonograma) ou adivinhas mediante a imagem dos objetos concretos de mesmo som. A essas representações acrescentavam-se os ‘complementos fonéticos’ (sinais fonéticos permitindo decompor e facilitar a leitura dos sinais pluriliterais, mas não acrescentando nenhuma articulação nova) e os ‘determinativos’ (sinais sem leitura, cuja função era precisar, no fim de uma palavra escrita mediante hieróglifos-fonogramas, a classe de seres ou objetos à qual a palavra em questão pertencia) evitando qualquer confusão entre os homófonos”.

                 


NOTA CULTURAL ABR2018

IRONIA

Prof. Alberto A. Rasia Filho

Jornalista, o carioca Sérgio Marcus Rangel Porto (1923-1968) tinha o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, possivelmente inspirado em personagem de Oswald de Andrade. Dele se falava que tinha a irreverência e a “permanente atualidade de sua doce-amarga visão das virtudes e defeitos que nos tornam uma parcela personalíssima da humanidade... Uns e outros – os velhos e os novos... – se deram conta de que ele amava apaixonadamente o Brasil e lançou mão da ironia para exorcizá-lo das correntes fantasmas que dificultavam – e continuam dificultando –a emancipação de nossa plena cidadania”. Por ironia entende-se a figura de linguagem “... que se caracteriza pelo emprego inteligente de contrastes... literariamente para criar ou ressaltar certos efeitos humorísticos...” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 2001). Em pleno período da ditadura militar brasileira, publicou dois volumes do “FEBEAPÁ”, ou seja, o “Festival de Besteiras que Assola o País” e faleceu antes da instituição do Ato Institucional número 5. Como um contraponto ao que ocorria na história e aos costumes e moral da época, em homenagem e tendo como patrono Sérgio Porto, grupo de cartunista, jornalistas, escritores e intelectuais de múltiplas áreas elaboraram e mantiveram o semanário “O Pasquim” desde 1969 e que, apesar da repressão e da concorrência com outras revistas, permaneceu até 1991 com a última edição de número 1072. Seguem exemplos do sentido das ideias de Sérgio Porto em torno da década de 60 passada, ao elaborarem-se as “Máximas de Tia Zulmira” (Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, edição de 1994):

- “Tem uns camaradas que não acreditam em Deus, vão para o Jóquei, estudam o programa e passam a acreditar piamente nas patas de um cavalo.

- Se há uma coisa que impõe respeito é o latim. Você pode dizer a maior besteira, mas se a disser em latim, o próximo concordará com gravidade.

- Depois de se examinar o leão é que a gente percebe que o verdadeiro palhaço do circo é o domador.

- Quando soube que todos os seus vizinhos eram pessoas exemplares, o homem sensato mudou-se para outro bairro.

- No Brasil a política se resume em não deixar a onça com fome nem o cabrito morrer.

- As estatísticas corretas nos deixam sempre uma falsa impressão.

- Tem gente que tem saudades de coisas que não chegaram a acontecer.

- Os candidatos nacionais são sempre tão ruins que eu invariavelmente voto em branco com a consciência tranqüila de ter cumprido da melhor maneira o chamado dever cívico.

- A prosperidade de alguns homens públicos no Brasil é uma prova evidente que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.

- Uma das melhores coisas que existe na televisão é o botão de desligar.

- Ou todos nos locupletamos ou restaure-se a moralidade.

- Todos os dias são do caçador. Só o último dia do caçador é que é da caça.

- Se tudo pode acontecer, é bem possível que o Dia do Juízo Final caia num feriado”.


NOTA CULTURAL MAR2018

SONS PULMONARES

Prof. Alberto A. Rasia Filho

No livro de “Semiologia do Adulto” de Waldo Mattos e colaboradores (Ed. Medbook, 2017) há capítulo com a descrição e as referências sobre os “sons pulmonares anormais” percebidos quando da ausculta torácica do paciente. A razão de ser da nomenclatura de tais sons chama muito a atenção: “Os primeiros sons anormais, descritos por Laennec no século XIX, foram denominados estertores (râle),em sentido amplo, para designar todos os ruídos anormais produzidos pela passagem do ar durante a respiração. Como esse termo também é utilizado para descrever a respiração estertorosa de pacientes moribundos, o termo râle foi substituído pelo equivalente na língua latina ronchus. Com o tempo, outros adjetivos foram acrescentados, cujas definições são imprecisas, mas comparáveis a sons observáveis na natureza. Assim surgiram as descrições râle humide, râle muqueux, râle sec sonore, râle sibilante, râle crepitant sec. A confusão da nomenclatura foi amplificada com a introdução para a língua inglesa por Forbes em 1831, na qual o autor atribuiu significados diferentes para râle e ronchus, consideranto o primeiro como rale, para descrever os sons não musicais, e o segundo como wheezes, para os sons musicais. Mais tarde, ronchus seria usado para os sons graves e wheezes para os agudos.

Na tentativa de corrigir distorções e uniformizar a nomenclatura, Robertson e Coope propuseram que os sons fossem divididos em duas categorias: contínuos e descontínuos. Nos anos seguintes, Forgacs reenfatizou a importância da classificação dos sons de acordo com seu mecanismo e também mostrou a relevância clínica de denominá-los de acordo com sua posição no ciclo respiratório e com a posição do paciente. Em 1971, a ATS” (American Thoracic Society) “sugeriu a aplicação da classificação proposta por Robertson, mas em 1975 foi publicada uma diretriz sobre nomenclatura pulmonar, elaborada conjuntamente pelas duas sociedades norte-americanas, ATS e ACCP” (American College of Chest Physicians)“, a qual sugeriu que fossem selecionados apenas os termos ronco e estertor, por serem os mais frequentemente utilizados, dando um significado único aos sons descontínuos, ao denominá-los estertores, e aos sons contínuos, roncos.

Entretanto, a adesão a essa proposta não foi universal, e os sons pulmonares anormais continuaram a ser descritos em seus subtipos. O comitê da ILSA (International Lung Sound Association) reuniu-se pela primeira vez em 1976 e elaborou uma nova proposta de classificação, a qual foi adotada pela ATS em 1977. No 10o simpósio da ILSA, realizado em Tóquio em 1985, especialistas de vários países novamente discutiram a questão e sugeriram a nomenclatura...” (estertores finos ou estertores grossos para sons descontínuos e sibilos ou roncos para sons contínuos) “incluindo a tradução para várias línguas, a qual vem sendo recomendada desde então. No entanto, houve um erro de tradução para a língua portuguesa na publicação original, quando foi descrita a nomenclatura crepitações finas e grossas, sendo corrigido posteriormente para a denominação correta de estertores finos e grossos, segundo a tradução recomendada.

No Brasil, observa-se ainda grande e inaceitável variabilidade na descrição da ausculta pulmonar. Auada e cols. observaram que nos 131 relatos de caso publicados no Jornal de Pneumologia, periódico da Sociedade Brasileira de Pneumologia, entre 1985 e 1997, havia 30 denominações distintas.”


NOTA CULTURAL FEV2018

BRASIL

Prof. Alberto A. Rasia Filho

As menções sobre quais terras foram as avistadas a oeste, além do Oceano Atlântico, divergiram entre os navegadores europeus. Já habitada por indígenas de diferentes grupamentos étnicos ao longo de milhares de anos, o que se determinou posteriormente como Brasil tem sua história reportada por navegadores antes de 1500 . De fato, há mapa espanhol com uma descrição muito mais extensa do continente (não de uma ilha somente) datado exatamente de 1500 e baseado em excursões anteriores à chegada de Cabral onde atualmente é a Bahia. De fato, depois de rota de navegação espanhola ao nordeste brasileiro datada de 1499, esse mapa, denominado de “Carta Universal de Juan de la Cosa”, apresenta desenho plano da extensão longitudinal de terra no continente americano tão grande quanto os continentes europeu e africano juntos e largura de terra de cerca da metade ou tão grande quanto a da África (disponível no Museu Naval de Madri).

“Brasil” pode ser encontrado na obra “Utopia” de Thomas Morus (ou More, livro original de 1516) onde, no prefácio da edição brasileira (Editora Universidade de Brasília, 2004),Afonso Arinos de Melo Franco faz constar: “Todos os estudiosos da Utopia sabem que as cartas narrativas que Vespúcio publicou, sobre suas viagens à América, (narrativas que, como é sabido, deram o nome ao Continente) estão na base das informações, ainda confusas, de More, que não aprendeu a diferença entre as Índias Orientais e Ocidentais. Menos conhecida, entretanto, é a ligação entre a Utopia e o Brasil, ou seja, a identificação da ilha da Utopia com a ilha brasileira de Fernando de Noronha, mencionada na carta de Vespúcio que mais serviu de roteiro ao livro de More. Esta sugestão, que ainda hoje me parece válida, foi feita no meu livro O Índio Brasileiro e a Revolução Francesa cuja primeira edição é de 1937”.

A prefeitura da cidade pernambucana de Cabo de Santo Agostinho, 33 km ao sul de Recife, considera como 1498 a data em que o navegador espanhol Vicente Yañes Pinzón (capitão do navio La Niña da esquadra de Colombo que chegou às ilhas centroamericanas em 1492) haveria de ter aportado nessa parte da costa brasileira e nomeando tal local como “Santa María de la Consolación” (http://www.cabo.pe.gov.br/nossa-cidade).

No “Memorial da Epopeia do Descobrimento” em Porto Seguro, Bahia, encontra-se cópia do documento (“Esmeraldo de situ orbis”, o qual tem de forma cifrada o nome do rei português Manoel I em latim, “Emmanuel”, associado a Duarte, “Eduardus”, mais a expressão “dos sítios da Terra”, ou seja, um tratado náutico, geográfico e econômico dos “novos lugares da Terra”) elaborado pelo navegador português Duarte Pacheco Pereira dando conta da existência de novas terras em 1498. Por razões que podem envolver interesses econômicos e políticos relacionados com o Tratado de Tordesilhas além da pirataria abundante nas rotas de navegação, parece existir menção a um tal novo lugar (que corresponderia às terras atualmente brasileiras) ainda no ano de 1493. O livro com essa descrição ficou inacabado e é atribuído aos anos de 1505 a 1508. Nele consta o seguinte: “Como no terceiro ano de Vosso Reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e cabo dela. É achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes reinos vem grandemente povoados.” “Brasis é como os portugueses chamavam os nossos índios, certamente por causa da tez morena dos gentios, que lembrava o pau de tinta” (Museu Náutico da Bahia, Forte de Santo Antônio da Barra, Salvador).

É muito interessante que o mesmo Duarte Pacheco Pereira fez parte da esquadra de Pedro Álvares Cabral. Mais chama a atenção que se contava igualmente com a presença e conhecimentos de Bartolomeu Dias, quem havia excursionado anteriormente pela costa da África. Tais fatos dão conta de grande navegação intencional ao ocidente, ainda mais por contar com navegadores experientes e com notável capacidade de se guiar com os recursos que existiam para posicionamento geográfico nos mares e oceanos. Por conta disso, Pero Vaz de Caminha assim descreve o tempo e o objetivo da saída de 13 navios portugueses: “... que a partida de Belém (em Lisboa),como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março; e sábado, 14 do dito mês, entre 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias,... no domingo, 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas do Cabo Verde (localizadas no Oceano Atlântico, a 600 km da costa africana)... Então seguimos nosso caminho, por esse mar de longo, até terça-feira de Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, quando topamos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha, segundo os pilotos diziam, obra de 660 a 670 léguas; os sinais eram: muita quantidade de ervas compridas... Na quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves... e neste dia, a horas de véspera, avistamos terra, a saber: Em primeiro lugar um monte grande, muito alto e redondo e outras serras mais baixas ao sul dele; e terra rasa, com grandes arvoredos. Ao mesmo monte alto pôs o Capitão o nome de Monte Pascoal; e à terra – Terra de Vera Cruz... Ali ficamos toda aquela noite e na quinta-feira, pela manhã, fizemos vela (começar a navegar) e seguimos direitos à terra com os navios pequenos... em frente da boca dum rio... Dali houvemos vista de homens que andavam pela praia, cerca de sete ou oito... Assim, quando o batel chegou à foz do rio estavam ali dezoito ou vinte homens, pardos, todos nus, sem nenhuma roupa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijos para o batel e Nicolau Coelho (também integrante da frota de Vasco da Gama que abriu a rota atlântica para as Índias) fez-lhes sinal para que deixassem os arcos e eles os pousaram. Mas não pode ter deles fala nem entendimento que aproveitasse porque o mar quebrava na costa. Apenas lhes deu um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. E um deles deu-lhe um sombreiro de penas de aves, compridas, com uma copazinha pequena, de penas vermelhas e pardas como as de papagaio...” (Ed. Mercado Aberto, 1998).

 


NOTA CULTURAL NOV2017

DEUSES MAIAS

Prof. Alberto A. Rasia Filho

Conforme se encontra descrito em Tulum, cidade da costa leste mexicana na península de “Yucatán” e onde estava parte administrativa e do comércio maia entre os séculos XIII e XV, os deuses estariam presentes em um ou mais elementos da natureza. Acreditava-se que alguns se manifestavam como estrelas ou por meio de fenômenos atmosféricos, como a chuva; outros, em plantas (por exemplo, as do gênero Ceiba, como a paineira ou a sumaúma, a qual é também a árvore símbolo da Guatemala) ou em animais, como o jaguar (figura representativa também encontrada no interior da imponente “Capilla” de Chichén Itzá). Cada época do ano e cada atividade cotidiana, como as colheitas, estavam relacionadas com um ritual consagrado a uma divindade com o propósito de que o trabalho humano fosse recompensado com ótimos resultados.

Tulum foi uma cidade dedicada ao planeta Vênus, o qual se associava com a divindade dual da claridade da manhã e da estrela do crepúsculo. Outra divindade importante foi “Ek Chuah”, deus do comércio, a quem se rendia culto quando das atividades de troca. É interessante que esse também era o deus da guerra.

Os demais deuses, cuja representação cultural e histórica é muito chamativa de atenção, são:

- Kukulcán, deus do vento;

- Itzamná, senhor do céu;

- Chaak, deus da chuva;

- Ixchel, deusa do parto, do tecido e da Lua;

- Ixtab, deusa do suicídio;

- Ah Puch, deus da morte;

- Xaman Ek, deus da estrela polar; e,

- Yum Kax, deus do milho.


NOTA CULTURAL OUT2017

“MAN ON HIS NATURE”

Prof. Alberto A. Rasia Filho

Charles Scott Sherrington recebeu o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina no ano de 1932, compartilhado com Edgar Douglas Adrian, pelas “descobertas a respeito da função dos neurônios”, mormente da base neural de organização da atividade reflexa. Como epônimo, o neurônio motor de tipo A alfa da parte anterior da medula espinal foi conhecido durante décadas como “via final comum de Sherrington”, o que servia para ressaltar quanto e como as aferências nervosas encefálicas e da própria medula espinal deveriam ser computadas por essa célula antes de se efetuar a contração das fibras extrafusais da musculatura esquelética.

Do “Ciclo de Conferências Gifford” nos anos 1937 e 1938 em Edimburgo, Escócia, resultou o livro intitulado “Man on his Nature” (Ediciones Orbis/Hyspamerica, Buenos Aires, 1985, do original da Cambridge University Press, 1940). Há frases como “Muitas coisas vivas não cessam de se transformar e se converter em algo distinto, entre elas está a nossa mente... Uma determinada proporção do que chamados de Natureza viva aprende. O que se costuma denominar sobrevivência do mais apto se baseia em parte na capacidade de certas formas de vida para aprender.”.

Antes de cada um dos capítulos desse livro foram escolhidas frases para ilustrar cada tópico. É o que segue selecionado, respectivamente:

- O Natural e a Superstição

“Que fixas que estão as estrelas no céu!” (D.G. Rossetti)

“Vemos que nos tempos modernos muitas pedras carecem das virtudes que lhes eram atribuidas.” (Petrus Garcias Episcopus)

- A Vida na Sua Mínima Expressão

“Lembro que uma vez passei vinte horas seguidas observando no microscópio um leucócito moroso em sua ação laboriosa de sair de um capilar sanguíneo.” (Santiago Ramón y Cajal)

“A imaginação que representam as palavras ‘jogo acidental de moléculas e átomos’.” (Keith W. Monsarrat)

- A Sabedoria do Corpo

“Ou um pequeno sorriso ante o maravilhoso.” (Keats)

- A Recomposição da Terra

“... o curso da Natureza... parece deleitar-se em transmutações.” (Newton)

“Os lírios primitivos se fizeram parte da criança e a erva e as flores bela-noite brancas e vermelha, e o trevo branco e vermelho e o canto do pássaro que transporta água. E os peixes curiosamente suspensos no fundo – e o precioso e estranho líquido. E os lírios de água com suas graciosas inflorescências – tudo formou parte dele.” (Walt Whitman)

“Penso que não fui criado para o céu ou para o inferno, senão simplesmente para a terra.” (W. Morris)


NOTA CULTURAL SET2017

“TÁCTICA Y ESTRATEGIA”

Alberto A. Rasia Filho

Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti Farugia (nascido 14/9/1920 e falecido 17/5/2009),conhecido Mario Benedetti, foi escritor e poeta uruguaio integrante da “Geração de 45”. Fez parte da equipe de redação do semanário local “Marcha”, dirigiu a revista literária “Marginalia” e participou do conselho editorial da revista “Número”, além de ser premiado pelo Ministério da Instrução Pública. Em 1971, fundou, com o “Movimento de Liberação Nacional – Tupamaros”, o “Movimento de Independentes 26 de Março”, coalizão de esquerda denominada “Frente Ampla”. Foi diretor do Departamento de Literatura Hispano-Americana da Faculdade de Humanidades e Ciências da Universidade da República, em Montevidéu. Após o golpe de estado uruguaio em 1973, esteve no exílio durante 10 anos. Foi laureado com o Prêmio Jristo Botev (Bulgária),doutor honoris causa pelas Universidades de Alicante e Valladolid, Prêmio Rainha Sofia de Poesia, Prêmio Ibero-Americano José Martí e o Prêmio Internacional Menéndez Pelayo. Uma de suas obras intitula-se “Táctica y Estrategia”, como segue:

“Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo                 ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple

mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin                 me necesites.”

Fonte:  Mario Benedetti, El amor, las mujeres y la vida. Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1995.  https://educacao.uol.com.br/biografias/mario-benedetti.htm


NOTA CULTURAL JUL2017

O Corvo

Alberto A. Rasia Filho

O poema “The Raven” foi escrito pelo estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849) em 1845. Teve tradução para o português elaborada por Machado de Assis em 1883, embora seja provável que essa seja versão surgida a partir da francesa elaborada por Baudelaire (Mafra e Schrull, seer.ufrgs.br/translatio/article/download/36692/23759). Ainda assim, percebe-se tal angústia e fatalismo no texto que confere ao pássaro negro uma referência figurada indelével, como segue na parte selecionada do poema abaixo:

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh\\\'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais".

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais"...

(Fonte: Machado de Assis. O Almada & Outros Poemas. Ed. Globo, São Paulo, 1997).


NOTA CULTURAL JUN2017

VILA DA CACHOEIRA

Alberto A. Rasia Filho

Em 1807 inicia a viagem de D. João, Príncipe Regente, chegando primeiro à Bahia e, depois, no Rio de Janeiro, no ano seguinte, depois de dezenas de dias no mar. Para tanto, a interessante carta de despedida entregue ao povo português dava conta que: “... Vejo que pelo interior do meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei da Itália, a quem eu me havia unido no continente, na persuasão de não mais ser inquietado... e querendo evitar as funestas consequências que se podem seguir de uma defesa, que seria mais nociva que proveitosa, servindo só de derramar sangue em prejuízo da humanidade, ... tenho resolvido, em benefício dos mesmos meus vassalos, passar com a rainha minha senhora e mãe, e com toda a real família, para os estados da América, e estabelecer-me na Cidade do Rio de Janeiro até à paz geral...”.

A Revolução Constitucionalista do Porto em 1820 exigiu o retorno da Família Real a Portugal. Assim, D. João VI e a maior parte da corte portuguesa retornou para a Lisboa, em 1821, depois de cerca de 13 anos no Rio de Janeiro. Embora a Independência do Brasil tenha oficialmente sido declarada em 1822, tal fato não foi aceito pelos lusitanos ou lusófilos que se encontravam na Bahia e menos ainda em Portugal. Prova disso é o que se percebe nas moedas de réis cunhadas nessa época. A partir de 1822, na Casa da Moeda do Rio de Janeiro, trocam-se as inscrições de anverso e as imagens existentes no reverso das moedas. Do anverso, até 1822, escrevia-se “JOANNES.VI.D.G.PORT.BRAS.ET.ALG.REX.” (“JOANNES SEXTUS DEI GRATIA PORTUGALIÆ BRASILIÆ ET ALGARBIORUM REX” ou D. João VI, por graça de Deus, rei de Portugal e do Brasil e Algarve) e no reverso estavam as armas do Reino Unido português e a inscrição “PECUNIA.TOTUM. CIRCUMIT.ORBEM.” (“O dinheiro circula pelo mundo todo”). A seguir, passa-se a empregar no anverso “PETRUS.I.D.G.CONST.IMP.ET.PERP.BRAS.DEF.“ (“PETRUS PRIMUS DEI GRATIA CONSTITUTIONALIS IMPERATOR ET PERPETUUS BRASILIÆ DEFENSOR” ou D. Pedro I, por graça de Deus, imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil) e no reverso, com o escudo das armas imperiais, encimado por coroa imperial e ladeados por ramo de tabaco e de café, inscrito “IN.HOC.SIGNO.VINCES.” (“Por este sinal vencerás”).

O mesmo não ocorreu imediatamente em Salvador onde se seguiu forjando moedas de X, XL e LXXX réis até 1823 ainda sob ordem portuguesa. Após a proclamação da Independência, Salvador seguia dominada e estrategicamente ocupada pelas tropas do Brigadeiro português Inácio L. Madeira de Melo. As lutas armadas entre os partidários brasileiro e português eram comuns e isso obrigou a saída de moradores da capital para o Recôncavo, em especial para a Vila Nossa Senhora do Porto da Cachoeira, onde foi instalado Conselho Interino do Governo. Eram líderes militares brasileiros o coronel Garcia Pacheco e o tenente coronel Rodrigo Antonio Falcão Brandão, a seguir Barão de Belém, posteriormente sob a coordenação do general Labatut. A decisão de instalar uma nova Casa da Moeda foi comunicada à D. Pedro I e instalada no Convento do Carmo, perdurando em atividade entre 07/06/1823 e 04/07/1823. Essa é a breve história da Casa da Moeda da Vila da Cachoeira. Servia para cunhar moedas de cobre no valor de LXXX réis, as quais pesavam cerca da metade do que costumeiramente se fazia e, interessante, tinham o desenho do Reino Unido no reverso, embora algumas com data de 1823 e outras recunhadas para ter a data mais evidente de 1821. Sobre isso pesam duas interpretações: (1) como os responsáveis pela cunhagem de moedas saíram às pressas de Salvador, levaram consigo o que puderam e os moldes disponíveis ainda com o escudo português. Ocorre, porém, que cunhar moedas com data de 1823 e manter referência ao domínio português não fazia nenhum sentido ao próprio movimento de independência. Por isso, e para ainda garantir a circulação dessas moedas adicionais, tiveram que recunhar o ano para um antes de 1822. E, (2) era preciso garantir o pagamento para as tropas, mesmo que de forma rudimentar e com moeda com cunho menos apurado e bem mais ‘fina’ do que o habitual.

A luta pela consolidação da independência terminou na Bahia em 2 de Julho de 1823, mas Portugal seguiu inscrevendo em suas moedas o Brasil associado a si, com legenda de anverso “JOANNES .VI.D.G.PORT.BR.ET.ALG.R.” até 1825.

Fonte: Maldonado, R. Catálogo Bentes de Moedas Brasileiras, MBA Editori Associati/Itália, 2014.


NOTA CULTURAL MAI2017

“QUIPUS”

Alberto A. Rasia Filho

A civilização no território que corresponde atualmente ao Peru havia surgido fazia milhares de anos quando, em 1532, os invasores espanhóis chegaram nesta parte da América do Sul e encontraram o grande império Inca. A extensão de terra era imensa, pequena parte da Colômbia, a maior parte do Equador, até norte da Argentina e do Chile, limitado em parte ao leste pela Cordilheira dos Andes. Cusco era considerada a capital, ponto de referência geográfico e onde estava o Templo do Sol (“Qoricancha”).

Os “quipus” foram o principal registro de informação da administração inca e eram elaborados por pessoas treinadas como “quipucamayocs” na língua quechua nativa. Tratam-se de arranjos de fios (de algodão ou pelo de camelídeos andinos) trançados e pendentes colocados em série, lado a lado, tendo um cordão primário horizontal como ponto de sustentação em comum. Esse arranjo envolve a estrutura de cada fio empregado (mais finos ou mais grossos) com cores diferentes, fios mais próximos uns dos outros ou separados formando um novo agrupamento, todos na posição vertical e com comprimentos que podem variar (em centímetros) obedecendo uma ordem ou posição de ocorrência. Os nós ocorrem ao longo da extensão de cada fio (variando, portanto, a posição do nó, a quantidade de nós e a forma dessa trama em cada unidade e em seu conjunto) além do aspecto terminal de cada fio (alguns com formato de um tufo de fiapos, outros com fios menores em diversas orientações ou com a ponta cortada e romba). Existem fios que estão colocados para cima da corda primária (que parecem ser menos frequentes),fios que surgem de um laço em forma de meia lua de onde saem os fios pendentes ou fios que servem como colaterais secundários amarrados aos pendentes principais. Há tipos diferentes de nós supostamente significando ou a continuação ou o término da informação. Cada um desses atributos representa uma informação e isso dá conta da quantidade de arranjos e a complexidade que se poderia alcançar com essas representações.

Considera-se que os “quipus” serviram como forma de numeração em sistema decimal, sendo os nós mais proximais os que representavam valor na ordem de dezena de milhar e os mais distais indicando as unidades. Não existir um nó em determinada posição poderia significar o zero. Assim, é possível que alguns “quipus” servissem para quantificar e registrar tributos, coisas e valores. Outros, para a população, permitiam distinguir quantos eram homens e quantas eram as mulheres, o tipo de trabalho e a produção. Alguns “quipus” muito compridos parecem ter servido para fazer registros ao longo do tempo (Museu Larco, Lima, Peru).

Poderia ser que alguns “quipus” formassem um logograma, ou seja, juntando-se símbolos e nós haveria de se representar uma palavra (ou parte dela) e seu significado. A veracidade dessa informação e sua interpretação é controversa. De fato, infelizmente, vários “quipus” não tem seu significado estabelecido até os dias de hoje. Isso em parte por causa do descuido com a conservação das peças ao longo dos séculos e por ter se perdido seu significado quando foram manipulados para serem retirados ou saqueados dos locais onde foram originalmente elaborados.


NOTA CULTURAL ABR2017

Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina

Alberto A. Rasia Filho

O prêmio originalmente criado pelo químico e engenheiro sueco Alfred Nobel (1833-1896),inventor da dinamite e detentor de mais 355 patentes, foi idealizado para homenagear quem houvesse contribuído “para o maior benefício da humanidade”. Ainda em vida, em 1895, Nobel escreveu em seu testamento que haveria de deixar cerca de US$ 265 milhões para subsidiar os prêmios. No máximo três pessoas são nomeadas ou, então, representantes de instituições e os prêmios são conferidos pela Academia Real de Ciências da Suécia e pelo Comitê Nobel da Noruega. Até hoje, Marie Curie, descobridora dos elementos químicos rádio e polônio, foi a única mulher a receber dois desses prêmios, um de Física e outro de Química.

Exatamente com os termos “Fisiologia ou Medicina”, o prêmio correspondente é anunciado por comitê no Instituto Karolinska na Suécia. O primeiro, em 1901, foi conferido ao pesquisador alemão Emil Adolf von Behring "for his work on serum therapy, especially its application against diphtheria, by which he has opened a new road in the domain of medical science and thereby placed in the hands of the physician a victorious weapon against illness and deaths". A seguir, o britânico Ronald Ross (1902) recebeu-o "for his work on malaria, by which he has shown how it enters the organism and thereby has laid the foundation for successful research on this disease and methods of combating it". Em 1903, o dinamarquês Niels Ryberg Finsen, "in recognition of his contribution to the treatment of diseases, especially lupus vulgaris, with concentrated light radiation, whereby he has opened a new avenue for medical science". O russo Ivan Petrovich Pavlov, em 1904, "in recognition of his work on the physiology of digestion, through which knowledge on vital aspects of the subject has been transformed and enlarged". Em 1905, o alemão Robert Koch, "for his investigations and discoveries in relation to tuberculosis". E, em 1906, o prêmio foi compartilhado pelo italiano Camillo Golgi e o espanhol Santiago Ramón y Cajal, embora com conceitos distintos sobre as teorias do ‘reticularismo’ ou do ‘neuronismo’ por seus trabalhos pioneiros e "in recognition of their work on the structure of the nervous system". Somente não houve premiação nos anos 1915-1918 durante a Primeira Guerra Mundial, 1921, 1925 e 1940-1942 durante a Segunda Guerra Mundial.

Fonte: http://www.nobelprize.org


NOTA CULTURAL MAR2017

“FAZER UM FILME”

Prof. Alberto A. Rasia Filho

Federico Fellini foi um dos cineastas mais extraordinários da história. Nascido na cidade italiana de Rimini em 1920, falecido em Roma em 1993, deixou um legado de 24 filmes, o primeiro datado de 1950 (“Mulheres e Luzes”, título bastante adaptado do original “Luci del varietà”). Nesta lista encontram-se “A Doce Vida” (“La dolce vita, 1960),“Fellini Oito e Meio” (“Otto e mezzo, 1963),“Amarcord” (1973),“Cidade das Mulheres” (“La città delle donne”, 1980),“E la nave va” (1983) e, o último, a “A Voz da Lua” (“La voce dela Luna”, 1989).

“Fazer um Filme” (1980) é um dos livros de Fellini dedicado à sua esposa Giulietta Masina, atriz talentosa que atuou sob sua direção. Com característica autobiográfica, expõe momentos de vida desde a infância e como cada fragmento de memória, como interpretações da realidade, fez constituir ideias fantásticas, perceber os dilemas da religião, da lucidez intelectual e da sexualidade, da hipocrisia da sociedade e, em muitas das imagens descritas no livro e nos filmes, foram ornamentados com as imagens de personagens caricatos em si mesmos, com fisionomias e expressões peculiares. Deste livro, Fellini conta: “Não conheço os clássicos do cinema: Murnau, Dreyer, Eisenstein. Vergonhosamente nunca assisti a eles... pensei não ser talhado para a direção (de filmes). Faltavam-me o gosto pela opressão tirânica, a coerência, o pedantismo, a capacidade de trabalhar sem parar e tantas outras coisas, mas sobretudo a autoridade... Já trabalhando como roteirista, indo ao set para modificar as situações ou os diálogos, eu me admirava que o diretor pudesse ter um relacionamento destacado com as atrizes. Para mim era difícil escrever um diálogo naquela confusão, sentia-me muito desconfortável com o trabalho em grupo, todos juntos fazendo uma coisa e falando forte. E, no entanto, hoje só consigo trabalhar bem no meio da confusão, como quando era jornalista e escrevia os artigos no último momento, no caos da redação. Sinto-me mais à vontade nos filmes rodados em externas, ao ar livre. Nisso Rossellini foi um precursor... Seguindo Rossellini enquanto filmava Paisà, tudo me pareceu claro, uma feliz revelação, a de que se podia fazer cinema com a mesma liberdade, a mesma leveza com a qual se desenha e se escreve, era possível realizar um filme se divertindo e sofrendo dia após dia, hora após hora, sem muita angústia com relação ao resultado final, a mesma relação secreta, ansiosa e exaltadora que se tem com as próprias neuroses; e a de que os impedimentos, as dúvidas, as mudanças de ideia, os dramas, os cansaços não eram muito diferentes dos sofridos pelo pintor, quando procura uma cor na tela, e pelo escritor que apaga e reescreve, corrige e recomeça, à procura de um modo expressivo que, impalpável e fugaz, vive escondido entre mil possibilidades... É isso, parece-me que com Rossellini aprendi – um ensinamento nunca traduzido em palavras, nunca expresso, nunca transformado em programa – a possibilidade de caminhar em equilíbrio no meio das condições mais adversas, mais contrastantes e, ao mesmo tempo, a capacidade de usar em benefício próprio essa adversidade e esses contrastes, transformá-los num sentimento, em valores emocionais, num ponto de vista. Rossellini fazia isso, vivia a vida de um filme como uma aventura maravilhosa que deve ser vivida e contada. Seu abandono nos confrontos da realidade, sempre atento, límpido, fervoroso... permitia-lhe capturar, fixar a realidade em todos os espaços, olhar o interior e o exterior das coisas, desvendar o que a vida tem de inalcançável, de misterioso, de mágico. Por acaso o neorrealismo não é isso?... E, assim, fazendo filmes só me proponho a seguir esta inclinação natural, a de contar histórias por intermédio do cinema, histórias que fazem parte de minha natureza e que gosto de narrar numa inextrincável mistura de sinceridade e de invenção, de vontade de chocar, de me confessar, me absolver, de um desejo despudorado de agradar, de interessar, de ser a moral, o profeta, a testemunha, o palhaço... de fazer rir e comover. Precisa de outro motivo?”

Fonte: Federico Fellini. Fazer um filme. Civilazação Brasileira, Rio de Janeiro, 2011.


NOTA CULTURAL FEV2017

Debret e a “Viagem Pitoresca e História ao Brasil”

Prof. Alberto A. Rasia Filho

Jean Baptiste Debret (1768-1848),pintor francês do período neoclássico, compôs a “Missão Artística de 1816” ou “Missão Artística Francesa”, organizada a pedido do rei Dom João VI e chefiada por Joaquim Lebreton, contando adicionalmente com arquiteto, paisagista e escultor. Debret esteve no Brasil até 1831 e é tido como o pintor da família real e da vida brasileira principalmente durante o Primeiro Império. Debret elaborou em verde o contorno de um losango amarelo, o que veio a representar parte da bandeira brasileira, e foi um dos inauguradores da “Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios” no Rio de Janeiro. Neste sentido, a “Aula Pública de Desenho e Figura, estabelecida por carta régia de 20 de novembro de 1800 foi a primeira ação oficial que se tem conhecimento para que se estabelecesse o ensino da arte no Brasil. Este, porém só teria início com a criação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, por Decreto-Lei de D. João VI, em 12 de agosto de 1816. Durante os primeiros dez anos o que temos são apenas algumas aulas ministradas por Debret e Grandjean de Montigny numa casa do centro da cidade que os dois artistas alugaram para esta finalidade. Em 1826, já com o prédio próprio projetado por Grandjean de Montigny tem início o ensino oficial das artes no Brasil, de acordo com o modelo da Academia Francesa, sendo que a Escola passa a chamar-se Academia Imperial das Belas Artes. Com o advento da República, a Academia passará a chamar-se Escola Nacional de Belas Artes e, a partir de 1971, será denominada Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nome que mantém ainda hoje.”

(http://www.eba.ufrj.br/index.php/eba/institucional)

 

Em 1839, Debret terminou de publicar uma série de gravuras agrupadas em tomos intitulados "Voyage Pitoresque et Historique au Brésil” ou “Séjour d\\\'un Artiste Français au Brésil". Dedicado “Aos Senhores Membros da Academia de Belas Artes do Instituto de França”, a obra recomendava: “Não vos deveis ter esquecido, senhores, de que, impressionado com o êxito da Academia do México, o senhor de Marialva, embaixador português em Paris, cujo desejo de criar, por sua vez, uma Academia Brasileira, nasceu das persuasivas conversações do Sr. de Humboldt; deveis lembrar-vos também de que, em 1815, o senhor Le Breton, seu amigo, nessa época secretário perpétuo de vossa classe, ciente do projeto, teve a coragem de realizá-lo de parceria com o senhor Taunay, seu colega de Instituto, que se devotou a essa expedição de que participei na qualidade de pintor de história.”

Debret procurou detalhar cada cena que via conforme se lhe apresentava, além de acrescentar texto correspondente às imagens, o que forma documento geográfico e biológico e, principalmente, sobre os habitantes e a organização social brasileira no período. Conforme encontra-se descrito ali (com a grafia da época da tradução),“Os limites políticos do Brasil são: ao norte a República da Colômbia, as Guianas francesas e espanhola; a leste o Oceano; ao sul, a República de Buenos Aires; e ao oeste o Paraguai, o Perú e a Colômbia... Divide-se o país em 18 províncias: Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Baía, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, São Pedro, Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais.” Sobre o “Caráter do Brasileiro”, no entanto, uma série de interpretações moldadas com base na visão da elite francesa da época se fazem perceber nitidamente na avaliação sociológica: “O solo variado do Brasil apresenta suscessivamente as diferentes temperaturas europeias, cuja influência se faz sentir no caráter moral e físico do habitante a ela submetido desde o nascimento. Essa variedade de temperatura explica, também a variedade notável que existe entre os brasileiros de cada uma das províncias dêsse vasto império. O brasileiro, geralmente bom, é dotado de uma vivacidade que se vislumbra nos seus olhos pretos e expressivos, feliz disposição natural que êle aplica com êxito no cultivo das ciências e das artes. Sua tendência inata para a poesia inspira-lhe o gôsto do belo ideal, do sobrenatural nas suas narrativas, principalmente quando fala de seu país; seu amor-próprio, que nisso se compraz, torna-o em geral contador de histórias com as quais procura causar impressão e provocar o espanto e a admiração do auditório. Suas faculdades naturais declinam na proporção da menor altitude em que habita. Mais fraco, então, e conservando apenas a vivacidade do espírito brasileiro, nos outros unida à força, não passa de um homem fértil em projetos, subjugado pelos seus desejos, que se sucedem demasiado rapidamente e cuja execução êle abandona por completo, julgando-a frivolamente penosa ou aborrecida. Nem por isso se mostra menos exigente quanto à perfeição dos objetos submetidos à sua crítica; mas é suficiente satisfação para seu amor-próprio descobrir-lhe os defeitos. É, no entanto, paciente nos trabalhos manuais. Aliás, gosta bastante do repouso, principalmente durante as horas quentes do dia, desculpando-se sem cessar com sua má saúde, de que parece afligir-se no momento mas que esquece logo para divertir-se com uma piada ou uma maledicência engenhosa cujo segrêdo recomenda ‘pro-forma’...

 

O ancião, no Brasil, vivendo retirado na sua residência rural, tem a voz dura por hábito e a conversa aguda por necessidade pois passa a existência a fiscalizar empregados que tentam enganá-lo e escravos preguiçosos e indolentes que procuram não fazer nada. Mas seu coração não sofre dessa tendência do espírito, pois mostra-se sempre generoso e hospitaleiro. O habitante do Brasil é bem feito; anda de cabeça erguida, mostrando assim sua fisionomia expressiva; as sobrancelhas são bem marcadas, pretas como os cabelos; os olhos grandes e vivos, os traços móveis e o sorriso agradável. Sua estatura geralmente pouco elevada dá-lhe uma grande flexibilidade e muita agilidade. Veste-se, na cidade, com um asseio meticuloso; cuida principalmente dos sapatos, pois não ignora que tem o pé pequeno e bem feito.

 

O luxo europeu o seduz: compraz-se em adotá-lo e, nas capitais das províncias, não é mais estranho a nossos costumes. Nas reùniões brasileiras a dança e a música brilham entre elegantes ‘toilletes’ imitadas da moda francesa mais recente... Eis o homem que em três séculos viveu toda a civilização da Europa e que, instruído por seu exemplo, poderá brevemente apresentar rivais no talento, assim como a América do Norte lhe apresenta modêlos de virtude

 

Fonte: Debret, J.B. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Tomo I. Livraria Martins Editora, São Paulo